Há muito tempo atrás, primeira metade dos anos 80, meu pai me deu um dos brinquedos mais queridos de toda a minha vida (sim eu elegia certos brinquedos como preferidos e ainda me lembro quais eram): o Ferrorama. A ideia do trem era fantástica e tinha uma coisa que, para mim, era exigência número um em qualquer brinquedo: não poderia se parecer com um brinquedo, tinha que se parecer com o real. Apesar de não ter nascido na era das locomotivas à vapor, este trem era absurdamente mais parecido com as locomotivas que via em filmes de faroeste do que qualquer outro similar. Não era multicolorido e suas dimensões eram mais proporcionais.
Meu primeiro Ferrorama era um XP-100, o mais simples de uma série de seis modelos, mas mesmo assim, não me sentia em desvantagem. Eu ADORAVA esse trem de paixão. Nunca esqueci de quando meu pai o comprou: foi num fim-de-tarde em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, bairro vizinho do meu, Santa Cruz. O trem foi comprado nas casas Sendas, numa época em que supermercados vendiam brinquedos muito bons e tinham seções GIGANTESCAS com toda a variedade capaz de fazer qualquer criança querer morar na loja.
Lógico que não existe mais. Eu era muito curioso e bagunceiro e, acabava colocando meus brinquedos sob várias provas de resistência. Somente alguns, que minha mãe cuidava de esconder inteligentemente, existem até hoje e servem para lembrar como minha infância foi boa e o quanto devo a meus pais por ter formado em mim um caráter simples, apesar de não terem me exposto a dificuldades. Agora é minha vez de fazer o mesmo por meu querido filho.
Neste natal último (2012), presenteei o pequeno Miguel com um Ferrorama XP-600, o mais avançado e mais desejado pelas crianças nos idos anos 80. Depois de algum tempo, a estrela interrompeu e re-lançou as séries com numerações diferentes, mas conservando as características dos antigos. As grandes diferenças eram o som e as luzes, não presentes nas versões anteriores. Dessa forma, as numerações, ao invés de XP-100, XP-200, XP-300, XP-400, XP-500 e XP-600, ficaram assim: XP-1100, XP-1200, XP-1300, XP-1400 e XP-1500. Não existia XP-1600.
Como consegui um brinquedo tão especial e fora de catálogo?
Conheci um vendedor de brinquedos antigos que tinha anunciado este Ferrorama no site Mercado Livre. Uma grande surpresa foi quando soube que ele mora no Rio de Janeiro e fui retirar a caixa em sua residência pessoalmente. Contei do valor que este trem representava para mim e que eu o daria de presente ao meu filho e ele acabou me dando de presente mais um vagão extra de passageiros. Este novo grande amigo também me contou que colecionava trens e acabamos conversando por uns quarenta minutos sobre infâncias e futuros, já que somos pais muito presentes.
Dar ao meu filho um presente que era um sonho dos meus tempos de moleque carregou o ato de bons sentimentos e muito amor. A expressão do menino ao ver o trem circulando pelo enorme conjunto de trilhos que tomou TODO o chão da sala foi a coisa mais linda daquela noite.
Depois que entrei "de cabeça" nesse mundo do ferreomodelismo resolvi resgatar um pouco sobre a história e orígem desse fantástico trenzinho da Estrela que fez tanta gente feliz.
Fui às pesquisas pela internet e acabei me surpreendendo com os resultados.
O brinquedo que no Brasil chamamos de Ferrorama foi projetado pela empresa japonesa Tomy, e seu verdadeiro nome é Super Rail Black.
Isso explica algumas diferenças entre as locomotivas ocidentais que via nos filmes de faroeste e mesmo as nossas antigas Consolidation, da Estrada de Ferro Central do Brasil, na qual meu avô trabalhava como maquinista.
É uma locomotiva originalmente japonesa e é conhecida por D-51. Construída pela Kawasaki Heavy Industries Rolling Stock Company, sob a configuração 2-8-2 Mikado, rodou pelo Japão entre 1936 e 1951.
E pra variar, muito diferente do que acontece com os sucateamentos "a la brazil", a maioria dessas locomotivas estão preservadas em museus por seu valor histórico, e também há uma linha atualmente em operação: a Joetsu Line (D-51 498), operada pela JR East. Isso é o mínimo que se poderia esperar de um país que apostou em seu desenvolvimento sobre os trilhos. Cá entre nós: o que é a "reta" ferroviária de um país de escala continental como o Brasil diante da complexidade e funcionalidade de uma verdadeira "malha", num país tão pequeno como o Japão? Nos falta muito a aprender sobre o valor dos trens com eles.
Para quem não conhece o Ferrorama original, abaixo podemos ver dois vídeos com um XP-100 e o XP-600 do meu filho:
Definitivamente, brinquedos com grande detalhamento visual nunca foi o forte de nossa indústria. Garanto que, pela "febre" dos fanáticos por esses trens, a antiga Manufatura de Brinquedos Estrela S. A. se investisse pesado em se aproximar da qualidade visual do Super Rail Black teria sido posicionada como a principal indústria de brinquedos brasileira.
O que dizer então se essa mesma empresa direcionasse sua visão para a fabricação de modelos exclusivamente brasileiros, como fez a Frateschi, só que movidos à pilha, na proposta original do Ferrorama? Teria sido algo como (imagino eu): "Ferrorama é o trem que toda pessoa brinca até seus 16 anos (ou mais). Posteriormente, as mesmas pessoas migram para os trens Frateschi (ou não, devido à alta qualidade deste Ferrorama fictício)". Creio que até a qualidade dos trens Frateschi seriam imbatíveis diante dessa ótima concorrência. O consumidor teria mais opções, ao final.
Sei que não se compara Ferrorama com Frateschi no ferreomodelismo, mas são opções viáveis e reais que atenderiam melhor os interesses do público. Eu não deixaria meu filho brincar com uma G-22 Frateschi com as mãos. O preço, a fragilidade e a operação impede que seja um brinquedo destinado à crianças. Se houvesse uma G-22 "versão Ferrorama", movida à pilha, mais resistente às intenções dos pequenos, com certeza pais ferreomodelistas se interessariam e comprariam para seus filhos. E não devemos nos esquecer que o ferreomodelismo é um divertimento que aproxima a família inteira, dentre outros benefícios físicos e psicológicos. Com certeza faz mais bem que brincar horas na frente de um monitor.
Hoje meu filho e eu nos dedicamos a um ferreomodelismo onde podemos experimentar nossa relação atemporal sobre os trens e aprimorar nossa amizade. Brincamos, discutimos, observamos, criamos. Tudo isso começa na simplicidade de uma brincadeira, assim como meus pais fizeram comigo. Uma ótima brincadeira que atrai o interesse por família que anda "nos trilhos" do equilíbrio, onde o rancor, o ódio, a mágoa, o preconceito nunca embarcarão.
Meu primeiro Ferrorama era um XP-100, o mais simples de uma série de seis modelos, mas mesmo assim, não me sentia em desvantagem. Eu ADORAVA esse trem de paixão. Nunca esqueci de quando meu pai o comprou: foi num fim-de-tarde em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, bairro vizinho do meu, Santa Cruz. O trem foi comprado nas casas Sendas, numa época em que supermercados vendiam brinquedos muito bons e tinham seções GIGANTESCAS com toda a variedade capaz de fazer qualquer criança querer morar na loja.
![]() |
| Um Ferrorama XP-100 idêntico ao meu da época |
Lógico que não existe mais. Eu era muito curioso e bagunceiro e, acabava colocando meus brinquedos sob várias provas de resistência. Somente alguns, que minha mãe cuidava de esconder inteligentemente, existem até hoje e servem para lembrar como minha infância foi boa e o quanto devo a meus pais por ter formado em mim um caráter simples, apesar de não terem me exposto a dificuldades. Agora é minha vez de fazer o mesmo por meu querido filho.
Neste natal último (2012), presenteei o pequeno Miguel com um Ferrorama XP-600, o mais avançado e mais desejado pelas crianças nos idos anos 80. Depois de algum tempo, a estrela interrompeu e re-lançou as séries com numerações diferentes, mas conservando as características dos antigos. As grandes diferenças eram o som e as luzes, não presentes nas versões anteriores. Dessa forma, as numerações, ao invés de XP-100, XP-200, XP-300, XP-400, XP-500 e XP-600, ficaram assim: XP-1100, XP-1200, XP-1300, XP-1400 e XP-1500. Não existia XP-1600.
Como consegui um brinquedo tão especial e fora de catálogo?
Conheci um vendedor de brinquedos antigos que tinha anunciado este Ferrorama no site Mercado Livre. Uma grande surpresa foi quando soube que ele mora no Rio de Janeiro e fui retirar a caixa em sua residência pessoalmente. Contei do valor que este trem representava para mim e que eu o daria de presente ao meu filho e ele acabou me dando de presente mais um vagão extra de passageiros. Este novo grande amigo também me contou que colecionava trens e acabamos conversando por uns quarenta minutos sobre infâncias e futuros, já que somos pais muito presentes.
Dar ao meu filho um presente que era um sonho dos meus tempos de moleque carregou o ato de bons sentimentos e muito amor. A expressão do menino ao ver o trem circulando pelo enorme conjunto de trilhos que tomou TODO o chão da sala foi a coisa mais linda daquela noite.
Depois que entrei "de cabeça" nesse mundo do ferreomodelismo resolvi resgatar um pouco sobre a história e orígem desse fantástico trenzinho da Estrela que fez tanta gente feliz.
Fui às pesquisas pela internet e acabei me surpreendendo com os resultados.
O brinquedo que no Brasil chamamos de Ferrorama foi projetado pela empresa japonesa Tomy, e seu verdadeiro nome é Super Rail Black.
![]() |
| Super Rail Black, o Ferrorama original. Tinha que ser japonês, né! |
Isso explica algumas diferenças entre as locomotivas ocidentais que via nos filmes de faroeste e mesmo as nossas antigas Consolidation, da Estrada de Ferro Central do Brasil, na qual meu avô trabalhava como maquinista.
É uma locomotiva originalmente japonesa e é conhecida por D-51. Construída pela Kawasaki Heavy Industries Rolling Stock Company, sob a configuração 2-8-2 Mikado, rodou pelo Japão entre 1936 e 1951.
![]() |
| Locomotiva D-51 452, preservada em seu país. |
E pra variar, muito diferente do que acontece com os sucateamentos "a la brazil", a maioria dessas locomotivas estão preservadas em museus por seu valor histórico, e também há uma linha atualmente em operação: a Joetsu Line (D-51 498), operada pela JR East. Isso é o mínimo que se poderia esperar de um país que apostou em seu desenvolvimento sobre os trilhos. Cá entre nós: o que é a "reta" ferroviária de um país de escala continental como o Brasil diante da complexidade e funcionalidade de uma verdadeira "malha", num país tão pequeno como o Japão? Nos falta muito a aprender sobre o valor dos trens com eles.
Para quem não conhece o Ferrorama original, abaixo podemos ver dois vídeos com um XP-100 e o XP-600 do meu filho:
A locomotiva "elétrica" deste Ferrorama XP-600 obviamente também foi baseada num trem japonês, mais moderno: a série EF-65, fabricada pelas empresas Fuji Electric, Kawasaki Sharyō, Kisha, Nippon Sharyo, Toshiba e Toyo, entre 1965 e 1979. Ainda estão em operação e executam funções de carga até hoje.
Agora comparemos com a variedade de detalhes e modelos do Super Rail Black original:
O que dizer então se essa mesma empresa direcionasse sua visão para a fabricação de modelos exclusivamente brasileiros, como fez a Frateschi, só que movidos à pilha, na proposta original do Ferrorama? Teria sido algo como (imagino eu): "Ferrorama é o trem que toda pessoa brinca até seus 16 anos (ou mais). Posteriormente, as mesmas pessoas migram para os trens Frateschi (ou não, devido à alta qualidade deste Ferrorama fictício)". Creio que até a qualidade dos trens Frateschi seriam imbatíveis diante dessa ótima concorrência. O consumidor teria mais opções, ao final.
Sei que não se compara Ferrorama com Frateschi no ferreomodelismo, mas são opções viáveis e reais que atenderiam melhor os interesses do público. Eu não deixaria meu filho brincar com uma G-22 Frateschi com as mãos. O preço, a fragilidade e a operação impede que seja um brinquedo destinado à crianças. Se houvesse uma G-22 "versão Ferrorama", movida à pilha, mais resistente às intenções dos pequenos, com certeza pais ferreomodelistas se interessariam e comprariam para seus filhos. E não devemos nos esquecer que o ferreomodelismo é um divertimento que aproxima a família inteira, dentre outros benefícios físicos e psicológicos. Com certeza faz mais bem que brincar horas na frente de um monitor.
Hoje meu filho e eu nos dedicamos a um ferreomodelismo onde podemos experimentar nossa relação atemporal sobre os trens e aprimorar nossa amizade. Brincamos, discutimos, observamos, criamos. Tudo isso começa na simplicidade de uma brincadeira, assim como meus pais fizeram comigo. Uma ótima brincadeira que atrai o interesse por família que anda "nos trilhos" do equilíbrio, onde o rancor, o ódio, a mágoa, o preconceito nunca embarcarão.


