terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Ferrorama

Há muito tempo atrás, primeira metade dos anos 80, meu pai me deu um dos brinquedos mais queridos de toda a minha vida (sim eu elegia certos brinquedos como preferidos e ainda me lembro quais eram): o Ferrorama. A ideia do trem era fantástica e tinha uma coisa que, para mim, era exigência número um em qualquer brinquedo: não poderia se parecer com um brinquedo, tinha que se parecer com o real. Apesar de não ter nascido na era das locomotivas à vapor, este trem era absurdamente mais parecido com as locomotivas que via em filmes de faroeste do que qualquer outro similar. Não era multicolorido e suas dimensões eram mais proporcionais.

Meu primeiro Ferrorama era um XP-100, o mais simples de uma série de seis modelos, mas mesmo assim, não me sentia em desvantagem. Eu ADORAVA esse trem de paixão. Nunca esqueci de quando meu pai o comprou: foi num fim-de-tarde em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, bairro vizinho do meu, Santa Cruz. O trem foi comprado nas casas Sendas, numa época em que supermercados vendiam brinquedos muito bons e tinham seções GIGANTESCAS com toda a variedade capaz de fazer qualquer criança querer morar na loja.

Um Ferrorama XP-100 idêntico ao meu da época

Lógico que não existe mais. Eu era muito curioso e bagunceiro e, acabava colocando meus brinquedos sob várias provas de resistência. Somente alguns, que minha mãe cuidava de esconder inteligentemente, existem até hoje e servem para lembrar como minha infância foi boa e o quanto devo a meus pais por ter formado em mim um caráter simples, apesar de não terem me exposto a dificuldades. Agora é minha vez de fazer o mesmo por meu querido filho.

Neste natal último (2012), presenteei o pequeno Miguel com um Ferrorama XP-600, o mais avançado e mais desejado pelas crianças nos idos anos 80. Depois de algum tempo, a estrela interrompeu e re-lançou as séries com numerações diferentes, mas conservando as características dos antigos. As grandes diferenças eram o som e as luzes, não presentes nas versões anteriores. Dessa forma, as numerações, ao invés de XP-100, XP-200, XP-300, XP-400, XP-500 e XP-600, ficaram assim: XP-1100, XP-1200, XP-1300, XP-1400 e XP-1500. Não existia XP-1600.

Como consegui um brinquedo tão especial e fora de catálogo?

Conheci um vendedor de brinquedos antigos que tinha anunciado este Ferrorama no site Mercado Livre. Uma grande surpresa foi quando soube que ele mora no Rio de Janeiro e fui retirar a caixa em sua residência pessoalmente. Contei do valor que este trem representava para mim e que eu o daria de presente ao meu filho e ele acabou me dando de presente mais um vagão extra de passageiros. Este novo grande amigo também me contou que colecionava trens e acabamos conversando por uns quarenta minutos sobre infâncias e futuros, já que somos pais muito presentes.

Dar ao meu filho um presente que era um sonho dos meus tempos de moleque carregou o ato de bons sentimentos e muito amor. A expressão do menino ao ver o trem circulando pelo enorme conjunto de trilhos que tomou TODO o chão da sala foi a coisa mais linda daquela noite.

Depois que entrei "de cabeça" nesse mundo do ferreomodelismo resolvi resgatar um pouco sobre a história e orígem desse fantástico trenzinho da Estrela que fez tanta gente feliz.

Fui às pesquisas pela internet e acabei me surpreendendo com os resultados.

O brinquedo que no Brasil chamamos de Ferrorama foi projetado pela empresa japonesa Tomy, e seu verdadeiro nome é Super Rail Black.

Super Rail Black, o Ferrorama original. Tinha que ser japonês, né!

Isso explica algumas diferenças entre as locomotivas ocidentais que via nos filmes de faroeste e mesmo as nossas antigas Consolidation, da Estrada de Ferro Central do Brasil, na qual meu avô trabalhava como maquinista.

É uma locomotiva originalmente japonesa e é conhecida por D-51. Construída pela Kawasaki Heavy Industries Rolling Stock Company, sob a configuração 2-8-2 Mikado, rodou pelo Japão entre 1936 e 1951.
Locomotiva D-51 452, preservada em seu país.

E pra variar, muito diferente do que acontece com os sucateamentos "a la brazil", a maioria dessas locomotivas estão preservadas em museus por seu valor histórico, e também há uma linha atualmente em operação: a Joetsu Line (D-51 498), operada pela JR East. Isso é o mínimo que se poderia esperar de um país que apostou em seu desenvolvimento sobre os trilhos. Cá entre nós: o que é a "reta" ferroviária de um país de escala continental como o Brasil diante da complexidade e funcionalidade de uma verdadeira "malha", num país tão pequeno como o Japão? Nos falta muito a aprender sobre o valor dos trens com eles.

Para quem não conhece o Ferrorama original, abaixo podemos ver dois vídeos com um XP-100 e o XP-600 do meu filho:

 



A locomotiva "elétrica" deste Ferrorama XP-600 obviamente também foi baseada num trem japonês, mais moderno: a série EF-65, fabricada pelas empresas Fuji ElectricKawasaki Sharyō, KishaNippon SharyoToshiba e Toyo, entre 1965 e 1979. Ainda estão em operação e executam funções de carga até hoje.

Agora comparemos com a variedade de detalhes e modelos do Super Rail Black original: 


Definitivamente, brinquedos com grande detalhamento visual nunca foi o forte de nossa indústria. Garanto que, pela "febre" dos fanáticos por esses trens, a antiga Manufatura de Brinquedos Estrela S. A. se investisse pesado em se aproximar da qualidade visual do Super Rail Black teria sido posicionada como a principal indústria de brinquedos brasileira.

O que dizer então se essa mesma empresa direcionasse sua visão para a fabricação de modelos exclusivamente brasileiros, como fez a Frateschi, só que movidos à pilha, na proposta original do Ferrorama? Teria sido algo como (imagino eu): "Ferrorama é o trem que toda pessoa brinca até seus 16 anos (ou mais). Posteriormente, as mesmas pessoas migram para os trens Frateschi (ou não, devido à alta qualidade deste Ferrorama fictício)". Creio que até a qualidade dos trens Frateschi seriam imbatíveis diante dessa ótima concorrência. O consumidor teria mais opções, ao final.

Sei que não se compara Ferrorama com Frateschi no ferreomodelismo, mas são opções viáveis e reais que atenderiam melhor os interesses do público. Eu não deixaria meu filho brincar com uma G-22 Frateschi com as mãos. O preço, a fragilidade e a operação impede que seja um brinquedo destinado à crianças. Se houvesse uma G-22 "versão Ferrorama", movida à pilha, mais resistente às intenções dos pequenos, com certeza pais ferreomodelistas se interessariam e comprariam para seus filhos. E não devemos nos esquecer que o ferreomodelismo é um divertimento que aproxima a família inteira, dentre outros benefícios físicos e psicológicos. Com certeza faz mais bem que brincar horas na frente de um monitor.

Hoje meu filho e eu nos dedicamos a um ferreomodelismo onde podemos experimentar nossa relação atemporal sobre os trens e aprimorar nossa amizade. Brincamos, discutimos, observamos, criamos. Tudo isso começa na simplicidade de uma brincadeira, assim como meus pais fizeram comigo. Uma ótima brincadeira que atrai o interesse por família que anda "nos trilhos" do equilíbrio, onde o rancor, o ódio, a mágoa, o preconceito nunca embarcarão.



18 comentários:

  1. Parabéns pela matéria Sami Souza. De fato o ferrorama trás até hoje uma magia inesplicável a quem viveu a sua época. Conforme você disse, é uma bricadeira que une a família e manda embora sentimentos ruins. Bela matéria. Pedimos mais uma vez a volta deste grande brinquedo que é o ferrorama.

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    1. Agradeço seu comentário, Douglas. De boas lembranças também procuro encher o meu pequeno. O ferreomodelismo me serve, além de higiene mental, como uma atividade que desenvolvo junto com meu filho e isso não tem preço. Também gostaria muito que o Ferrorama voltasse com todo o "glamour" dos anos 80, menos "chinês" e mais próximo possível do original. Talvez, quem sabe, até em versões brasileiras como mencionei :D

      Um grande abraço!

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  2. texto que expõe a alma de quem curte ferrorama.. parabens .. adorei....

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    1. É isso mesmo, Luiz! Há muito tempo comecei a escrever este texto com base nos sentimentos da época do natal. Estava se aproximando o dia de dar o presente ao meu filho e eu é quem estava ansioso por entregar o XP-600 a ele. Não aguentava de ansiedade por ver a cara dele. imaginei como se fosse eu ganhando o XP-100 lá nos anos 80. Foi muita emoção. Sabe: revivendo aquele momento mágico!

      E eu curto muuuito trens elétricos. O Ferrorama teve participação importante na minha infância. Nada mais justo que passar esse sentimento adiante!

      Obrigado pelo comentário! Um grande abraço!

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  3. Excelente texto, ganhei um ferrorama SL-5000 no natal de 1993 com dez anos de idade e uma pena que não o tenha mais, contudo irei comprar um se Deus quiser para poder brincar com meu filho, pois hoje infelizmente os brinquedos a meu ver nem se comparam com os brinquedos dos anos 80 e primeira metade dos anos 90.
    um grande abraço.

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    1. É impressionante, Angelo, como a qualidade dos brinquedos atuais ficou longe daqueles das décadas passadas. Outro dia comprei uma Ferrari de controle remoto para meu filho e parecia ser um brinquedo de qualidade, dados o visual bastante realista e seu preço (meio fora da realidade). Porém, durante uma brincadeira normal, sem batidas ou tombos, a caixa de redução teve uma de suas engrenagens danificadas paralisando o carrinho por tempo indeterminado até eu encontrar uma manutenção adequada. Lógico que ainda não encontrei. Fica a pergunta? Vale mesmo à pena gastar mais de 100,00 num brinquedo que não duraria mais de um mês, ainda que usado com todo cuidado?

      Obrigado por seu comentário. Um grande abraço!

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  4. Parabéns pelo texto! vc disse tudo e mais um pouco sobre os sentimento que esse brinquedo desperta na gente ainda nos tempos de hoje.
    Sou colecionador do ferrorama nacional, pois o super rail ainda ta meio fora das minhas condições srrsrs..também sou praticante de ferreomodelismo com material frateschi.
    Infelismente a estrela não se importa em relançar os modelos de novo e nem em desenvolver outros tipo de brinquedo se baseando nos trens aki do Brasil.Pois já enviei várias mensagens e ideias e eles nunca se manisfestaram.
    Venha participar dos meus grupo ferrorama nostalgico e ferromodelismo(ferreomodelismo) iniciante no facebook,pois será muito bem vindo..
    Fui um dos pioneiros em criar um grupo sobre ferrorama no face, era o ferrorama forever e anos 80, mas devidos alguns problemas desfiz esse e acabei criando outro, bem recente ok!

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  5. Obrigado pelo convite, Lordhades! Se puder coloque o link para sua página no Facebook, pois não o consegui encontrar pela busca da rede social. A Estrela não fabrica mais o Ferrorama porque o interesse das crianças dos dias de hoje gira muito mais em torno do computador e outras brincadeiras eletrônicas. O mundo é mais virtual que outra coisa, então produzir de novo o trenzinho poderia até acabar em prejuízo para a empresa que até parece que anda mal das pernas por não se entregar ao modismo dos "brinquedos virtuais". Mas podemos fazer a nossa parte divulgando cada vez mais o ferreomodelismo por aí. Meu filho acompanha esse meu hobby desde muito novinho, então ele tem grande interesse nos trens. Qual pai brinca de trem junto com seu filho? É por isso (ausência do pai na brincadeira) que a Estrela não produz mais o Ferrorama. Grande abraço!

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  6. Olá pessoal , tenho varios ferroramas antigos para vender se alguém se interessar entre em contato por e-mail ferreira.xande@gmail.com ou celular whatsapp 19-997390571. ok obrigado

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    1. Olá, Alexandre!

      Obrigado por seu anúncio. Não sei se você conhece ou já faz parte de algumas comunidades sobre o ferrorama no Facebook, mas com certeza divulgarei seu telefone por lá ainda hoje.

      Grande abraço!!

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  7. Muito bom o texto, possuo um ferrorama que ganhei nos Anos 90, mas não seu a versão dele. É o que tem alem do vagão de carvão, tem o vagão marrom de carga e o amarelo de combustível. Você sabe me informar qual é a versão?

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    1. Olá, Marcus!

      É bom saber que há pessoas que ainda visitam este blog apesar de eu não conseguir mantê-lo atualizado há muito tempo.

      O seu Ferrorama, de acordo com sua descrição, se não tiver luzes seria o XP-300 e no caso de possuir luzes trata-se do XP-1300.

      Agora estou mantendo um grupo no Facebook que me permite adicionar atualizações mais frequentes, justamente por não prejudicar o contato com clientes através da rede social.

      Se quiser visite e acompanhe por lá. Será um imenso prazer tê-lo comentando e opinando as postagens!

      O link é este:
      https://www.facebook.com/search/top/?q=ferreomodelismo%20santa%20cruz

      Um grande abraço!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Boa tarde!! Tenho um filho de 4 anos e queria saber qual é o melhor: iniciar no ferromodelismo ou ficar com o ferrorama até ele ficar maior? Qual seria essa idade?

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    1. Boa tarde, Adonay!

      De fato a segunda opção, iniciar pelo Ferrorama, é a mais adequada.

      Meu filho tem contato com o ferreomodelismo desde os 5, mas ele tem o Ferrorama XP-600 dele. Foi ali que ele começou e hoje, aos 9, já consegue manusear com bastante cuidado e sem minha presença permanente, mas também nessa idade (dos 9 aos 12, ou 13) é que eles têm váááárias ideias que gostariam de testar, como CHOCAR dois trens em sentido oposto, ou fazer circular um vagão simultaneamente em duas linhas paralelas colocando cada truque numa linha. Isso pode danificar algumas ferrovias.

      Felizmente meu filhão é um garoto obediente e milagrosamente paciente e sempre pergunta antes de manusear os controles ou trens com as mãos. Hoje ele já até tem a própria locomotiva HO dele e cuida muito bem dela.

      O Ferrorama carrega, para nós adultos, uma atmosfera emocional muito grande, mas ele passa longe da real complexidade de uma ferrovia modelo (ferreomodelismo).

      Lembro-me de um pai que ligou para a fábrica Frateschi, que produz os trens brasileiros em escala. Ele reclamou bastante porque não entendia sequer como fazer o trem rodar e qual a utilidade dos pregos e dos fios e talas de junção que vinham na embalagem.

      A própria Frateschi respondeu que não se tratava de um brinquedo, portanto, que não tinha como montar e "brincar" de forma tão imediata. É um produto que você compra e vai construindo aos poucos. Apenas montando o oval simples de trilhos é que se consegue ver a locomotiva puxar os vagões do conjunto de iniciante, mas mesmo assim, por ficar estocado em alguma loja, o mecanismo não responde imediatamente, obrigando o comprador a desmontar, lubrificar cada peça e só depois fazer o teste de rodagem de forma provisória.

      Comece pelo Ferrorama, mas tenha em mente que ferreomodelismo é um tipo de hobby adulto. Requer um certo conhecimento básico sobre eletricidade e ajuda muito saber sobre eletrônica.

      Qualquer dúvida entre em contato novamente.

      Boa sorte e feliz ano novo pra você e sua família!

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  10. Tenho um Ferrorama dos anos 80...na caixa ...gostaria de saber quanto vale...pois pretendo vender.
    Lara 65 996868980 ou pousada@valedasaguasmt.com

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  11. Boa tarde, eu tenho um trem elétrico de xp-100, a caixa está um pouco danificada mas o trem está em ótimas condições, gostaria de saber quanto vale esse trem. (51) 996838263

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  12. Seu relato transmite de forma formidável toda a emoção de quem ganhou um ferrorama. No natal de 1983, quando eu tinha apenas dois anos de idade, ganhei a versão mais simples desse brinquedo. Esse presente foi tão importante que até hoje me lembro de cada detalhe daquele dia! Estávamos no apartamento dos meus avós paternos. Meus primos mais velhos, meus avós, meus pais e meus tios paternos estavam lá. Na véspera de Natal, à noite, meu pai montou o ferrorama encima da mesa de jantar e foi um sufoco para eu conseguir chegar perto do trenzinho! Todo mundo ficou em volta da mesa! Só no dia seguinte consegui mexer com calma. Tenho esse brinquedo até hoje. Algumas peças quebraram e precisei fazer algumas improvisações, mas ele continua a funcionar até hoje.

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